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Carta Aberta: Sankofa e a Saudade


Acredito que eu tenha voltado a este blog após muito tempo sem postagens, pura e simplesmente para que o destino fizesse alguma mágica e nos fizesse encontrar.Aqui, realmente, não há regra: pode haver uma publicação a cada três meses, duas em um dia ou até todos os dias.Eu sinto a sua falta. Sinto falta das nossas conversas, principalmente de madrugada, quando eu me via sozinha com insônia. Não sei por que estou tão aflita; deve ser a minha depressão e a ansiedade, que vivem em um cabo de guerra, me puxando para frente e para trás, sem me deixar em equilíbrio.

Escrevo esta carta aberta porque acredito que talvez, um dia, você a leia que isso chegue até você de alguma maneira. Não sei por que a saudade bateu justamente agora, tão forte. Eu estava bem sem a sua companhia, por mais que a separação tenha sido forçada e abrupta.Não sei se é pelo fato de eu me sentir sozinha. Quando criei esse blog com o nome Desabafo.doc, foi algo aleatório, escolhido pelo ChatGPT. Eu nem sequer tinha a pretensão de desabafar aqui; era mais como um depósito de coisas que eu não poderia -e nem conseguiria -dizer para algumas pessoas.

Fico imaginando como você deve estar agora. Nossa ruptura foi em 2022. Eu estava deitada, imóvel, apenas assistindo você ser tirado do meu lado. No final, só me lembro de associar tudo aquilo a uma manada de cavalos.Por algum motivo que não sei explicar, sempre te associei a Libra  e, de repente, lembrei que você é taurino. Duas vezes, né? Búfalo.Queria te contar que estou em um relacionamento. Voltei para aquela pessoa no ano passado, mas não estamos bem. A rotina, a minha doença… e a sua ausência. Eu quero ir embora, alugar um apartamento no centro só para mim, mas não sei como. Estou desempregada, doente… e sentindo a sua falta.

E, mesmo assim, não consigo me importar com isso como deveria, porque a minha saúde está indo por água abaixo. Você sabe que nunca fui de muitos amigos. Apesar de você ser o mais discreto da dupla, sempre básico com suas calças de moletom e camisetas pretas, brancas, vermelhas ou cinzas, sem estampa… Se não fosse o cabelo longo, ninguém imaginaria que você gostava de um rock mais pesado.Agora estou ouvindo Pink Floyd, tentando me acalmar para que a escrita flua  e está funcionando.

Sankofa é um conceito e símbolo do povo Akan (Gana, África Ocidental) que significa “voltar e buscar o que ficou para trás” (san = voltar; ko = ir; fa = buscar/pegar). Representa a sabedoria de ressignificar o passado para construir o futuro, sendo frequentemente representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás.

Na prática, Sankofa não é apenas olhar para o passado, mas retornar para aprender, corrigir e curar. O provérbio associado diz: “Não é tabu voltar atrás e buscar o que se esqueceu”. O símbolo mostra um pássaro que caminha para frente com a cabeça voltada para trás, segurando um ovo  a sabedoria, o futuro indicando que o amanhã se constrói com as lições do ontem.

Eu queria ter dito que te amava. Se me recordo bem, nunca consegui. Talvez eu nunca tenha enxergado o seu cuidado como uma forma de amor. Eu pensava que era apenas zelo, como o que eu mesma tinha com as amizades que admirava.Achava que você era distante. Mas é engraçado… antes mesmo de te conhecer  atravessando a rua para ir à escola, há 24 anos  eu pensei, aleatoriamente, que me casaria com um taurino. No fim, me casei com um capricorniano. Eu pedi, né? Pedi alguém honesto, de Capricórnio… e ele veio. Veio uma primeira vez, mas eu, sonsa, ignorei. Um ano depois, veio outro  e acabei namorando e me casando com ele.

Na minha cabeça, tudo isso está acontecendo para que eu perceba que talvez eu sempre tenha te amado. Te enxerguei em outras pessoas, mas sempre te achei inalcançável  e talvez por isso nossa comunicação fosse como era.Às vezes penso se você não era aquele garoto que, quando eu estava no oitavo ano, me acompanhava metade do caminho até a escola. Você era três anos mais velho e já estava se formando. Depois que uma amiga comentou que você me seguia, eu nunca mais te vi. E olha só… você estava de moletom. Ou pelo menos, era quem eu acreditava ser você.

Eu até voltei para as redes sociais tentando te reencontrar. Toda vez que vou à capital, me imagino esbarrando com você por acaso. Às vezes penso se essa tristeza não está me confundindo. Talvez esteja.
Tento lembrar das bandas que você gostava, mas minha memória fica nebulosa. Por isso coloquei Pink Floyd afinal, quem não gosta? Está tocando Us and Them agora. Acho essa música tão reconfortante.

Haven't you heard? It's a battle of words

The poster bearer cried

Listen, son, said the man with the gun

There's room for you inside

Além do J. (outro taurino), você foi a pessoa que mais me valorizou, independentemente da minha aparência. E como eu não consegui enxergar isso? Eu só acreditava que éramos bons amigos  que você era gentil por ser educado. E assim, nos mantivemos distantes.Você tentando se esconder… e eu tentando te encontrar em outras pessoas, acreditando que o seu afeto era apenas fraternal.
Engraçado: a falta que eu sentia daquela amiga talvez fosse, em parte, falta de você. O cuidado que ela tinha comigo… você também tinha. A diferença é que você não tinha vícios  mas ambos me respeitavam.

Acho que está na hora de te aceitar de volta na minha vida, mesmo na ausência. Talvez assim… quem sabe… você reapareça, de forma casual, diante de mim.

Não sei. De fato, não sei.

Engraçado… mudei a playlist e a primeira música que me veio foi Cross the Line, do Place Vendome. Bem a sua cara: sensato e cirúrgico.

(This is the place this is life I want to know)

All on my own

(So mighty yet so simple as the river flow)

And when I'm falling from grace

(This is the dream; this is the faith I must believe)

I've chosen to be

(To be the one to criticize the best of me)

Just another lesson learned

E é por isso que eu te amo. Por te conhecer tão bem, mesmo distante, mesmo sem comunicação. Porque, às vezes, surge na minha mente exatamente algo que você diria -como uma pedra firme- para me acalmar e me tirar desse vai e vem.

Então, te dedico essa música no final desta carta.

Te amo. E sempre vou amar.

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