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Alexsander, Adeus!

 Quando me lembrei de você ontem e direcionei todo o meu carinho a ti, eu estava tentando relevar o fato de você ter sido a pessoa que me trouxe aonde estou, onde permaneci e adoeci. Fui atrás de você, algo que escrevi, mas preciso admitir que precisei escrever daquela forma para me privar de expor certos detalhes íntimos sobre nós, sabe?

Compreendo a sua frustração por eu não ter correspondido às suas investidas. Então você, astuto que é, assumiu o papel de outra pessoa. Talvez esta carta seja apenas para você. Eu acreditava que cem por cento da culpa do nosso afastamento era minha, mas preciso deixar de lado o fato de ter gostado de você de verdade e de tê-lo achado um querido, para focar no seu orgulho. Você está tão acostumado a ter todas aos seus pés que, no final das contas, queria que eu fosse apenas mais uma. Fui honesta ao dizer que só queria sua amizade, assim como fui honesta ao admitir que você é atraente, o Instagram recomendou o seu perfil esses dias e você, de fato ainda é atraente, mesmo se passado três anos do nosso afastamento.

É interessante como, à medida que escrevo para você, a carta que fiz para o Alexsander perde o sentido. Afinal de contas E., você e ele são a mesma pessoa; fui eu quem não quis aceitar. Ontem fez um ano que visitei pela última vez, um lugar que me fez lembrar de você no instante em que entrei. Pensei que poderíamos dar uma festa ali juntos. Mas, conforme escrevo e me dou conta de que você é o Alex, sinto um peso sendo retirado de mim, como se um ciclo finalmente se encerrasse.

Você queria tanto estar comigo, mas nunca assumiu. E eu fui sentindo, absorvendo tudo... Naquele dia, quando você foi grosseiro sem motivo, decidi me afastar. Sua falta de paciência talvez tenha nos atrapalhado. Eu ia te visitar porque realmente gostava da sua companhia, e não por sexo, embora eu saiba (e isso é lisonjeiro) que você sentia tesão por mim. Talvez o "Allan" tenha outro nome para você; afinal, sei que você já foi ruivo, apesar de ser loiro.

E., você estava esperando que eu perguntasse? Quando o destino me fez te conhecer, pensei: "Que homem lindo, que voz maravilhosa!". E você estava sempre na defensiva, em estado de alerta,  nós poderíamos ter sido amigos, e me culpei recentemente por não termos sido. É curioso: talvez o Allan tenha passado pela sua vida com outro nome (já que aqui preservamos as identidades, mas para mim, desde 2002, ele sempre foi o Allan), já que vocês dois gostam de motos, de rock e têm essa ligação entre a capital e o interior.

Será E., que você desejou tanto a minha presença que acabei me mudando para a cidade onde sua filha mora? Para mim, o seu grande erro foi esperar uma atitude minha, mesmo depois de eu ter colocado as cartas na mesa e dito que queria apenas amizade. Será que você me idealizou, e ao se deparar comigo no mundo real, ficou confuso? É estranho que, mesmo me fazendo mal sob a identidade de Alexsander  não nego que nossa sintonia na cama era boa, quando a realidade bateu, sua mente entrou em curto-circuito.

Meu Deus, não consigo mais sentir raiva de você... De verdade. 

Da mesma forma que eu procurava o Allan em outras pessoas, você competia para ocupar o lugar dele e por um tempo, conseguiu. Será que você me conheceu primeiro? Foi simultâneo? Serei ainda mais franca contigo: reconheci a sua voz naquele vídeo do Instagram. Sonhei com você basicamente durante todo o ano de 2020, para só em 2023 te conhecer pessoalmente. Se eu contar, você acredita? Tudo em você estava lá: os olhos azuis, o maxilar quadrado, os lábios finos, o nariz delicado, os cabelos loiros e as mãos bonitas. É curioso pensar no que as pessoas diriam se eu contasse quem você é... 

(devo estar enlouquecendo)

 E sim E., eu sabia que você me achava atraente, mas, cavalheiro como é, jamais se referiria a mim de forma grosseira como fez a sua amiga M. Estou tentando processar tudo. 

Sei que errei ao me afastar, mas você também me repeliu, E. Espero que sua mente de alguma forma se recorde de mim e que você mude sua perspectiva ao meu respeito. Mas preciso pontuar algumas coisas:

Acredito que havia algo mais profundo por trás do seu silêncio sobre o óbvio. Não é porque sempre fui a última opção no passado, ou porque recebi apelidos e ataques pela minha aparência, que deixei de perceber quando alguém está interessado em mim. Mesmo com a autoestima baixa, atraí algumas poucas pessoas e sinceramente, o que te impedia de dizer que me queria? A etnia? Eu estar um pouco acima do peso? A nossa pouca diferença de idade, já que você estava acostumado a ser abordado por garotas mais jovens? O fato de você ter uma filha adolescente ou de eu morar no interior?

Cara, você pode até omitir os fatos, mas não sou cega. Sou uma mulher adulta e percebia o jeito que você me olhava a cada encontro. Você me cativou de tal forma que a raiva que eu sentia do Alexsander evaporou. Digamos que, como uma adulta solteira, aproveitei certas casualidades com você. Eu precisava assumir isso para mim mesma: você, E., era o Alex. E o fato é que você, apesar de tudo, é inseguro e em algum momento, quis ser o Allan. Tudo bem, fazemos coisas inconscientemente (agora está tocando No Easy Way Out e por algum motivo, associei a você).

Eu tive isso contigo... Quando estamos fragilizados, sempre nos lembramos de quem nos tratou com carinho e dignidade. Talvez seja isso: passei tanto tempo sem pensar em você e quando veio à minha mente, acredito que houve uma sintonia. Prefiro acreditar nisso a achar que estou enlouquecendo. Talvez seja apenas minha mente querendo colocar uma pá de cal em nossa história que, não sei se foi curta, longa ou mediana, mas foi intensa  ao menos para mim.

Eu sei que você gosta que eu vá direto ao ponto. No fundo, não é apenas por ser prático e direto, como vivia me dizendo. É que você não suporta esperar, E., e esse é um grande defeito seu. Acredito que você não teria me enganado se tentasse se passar pelo Allan. Para começar, ele é mais robusto. Embora os tons de voz de vocês se assemelhem, o seu tem um fundo rouco. Ao contrário de você, ele é narigudo. O queixo quadrado foi mera coincidência.

Sinceramente, estou aliviada e a raiva desapareceu. Sinto um tiquinho de pena, pois não sei se você conseguirá se resolver consigo mesmo. Posso estar em estado de mania, já que este é o terceiro texto que escrevo hoje, mas preciso lançar essas palavras ao vento  ou melhor, à internet, onde nossa história começou e terminou. Se eu ainda achasse que o Alexsander era outra pessoa, ficaria presa a você e te procuraria. Eu me conheço muito bem.

Sendo mania ou não pois, no fundo, gostaria que essa euforia estivesse ligada à minha saúde mental e não ao meu espírito (ao menos externalizei isso). Ainda guardo nossa foto juntos e gostaria que você fosse menos orgulhoso. Eu não tenho orgulho nessas situações e te procuraria para me desculpar, mesmo correndo o risco de receber um gelo. Eu precisava tirar isso do peito (caramba, começou a tocar Go Easy do Alien, eu ia pular essa faixa).

You were the one who said go easy (go easy), Baby be cool and keep it light

É bem a sua cara, mas você não admitiria. Prefere assumir a postura de Brown Sugar, do ZZ Top, e me diria:

I gotta have some of that Brown Sugar Gotta try it before I die

Em vez de se permitir parecer sensível... Estou rindo sozinha. Me culpei tanto por ter me afastado que não enxergava o óbvio (e como isso é libertador!): você gostou de mim de verdade, de uma forma leve e inédita para você. E., meu caro, assuma isso, caso ainda não o tenha feito. Não retiro o fato de ter te chamado de babaca, pois de certa forma você foi, e foi isso que me afastou. Agora me recordo do nosso primeiro abraço: fofo, demorado, gostoso... O jeito como você se encostava em mim, ombro a ombro; como se inclinava orgulhoso para me mostrar o seu  trabalho em suas pastas; como ficou nervoso a ponto de passar óleo na barba repetidas vezes e não conseguir parar quieto na minha presença. Pensei apenas: "Ele deve ter TDAH igual ao meu ex". Era nervosismo por estar perto de mim e não percebi na hora. Sua vontade de segurar minha mão, a mania de esbarrar em mim, o fato de começar a consumir TUDO de Sailor Moon só porque eu disse que era meu anime favorito...

Sua grosseria no final foi pura frustração por não saber verbalizar o que sentia, somada ao costume de ter as mulheres correndo atrás de você. Devo ter sido uma das únicas que não cedeu. Eu não era cega, via suas redes sociais e, vaidoso como é, sei que você gostava desse jogo. Bem, este será meu último ano morando perto da sua filha. Dificilmente nos esbarraremos por aí. Minha vida está um caos emocional desde o ano passado, com um casamento ruindo, enquanto lido com minhas demandas presentes e limpo as pendências do passado.

Sinceramente, não sei se o quero de volta na minha vida. Gosto de imensidão, mas imensidão combinada com intensidade gera confusão. Sempre achei que você era areia demais para o meu caminhão, mas, analisando minuciosamente nossa convivência, acho que eu é que era demais para você! Você não tem culhões para aguentar o meu tranco... Só espero, de verdade, que você me esqueça. Não quero me pegar voltando para você, nem mesmo em pensamento. A capital é gigantesca e, embora tenhamos gostos parecidos, duvido que nos reencontremos pelos bares da vida.

Eu precisava colocar um ponto final, nem que seja apenas para mim mesma!

PS: Essa música toda vez que tocava, eu associava á você sem saber o porque, agora eu sei e eu vou ficar na minha.

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