Olho para trás e, honestamente, eu gostaria de ter percebido antes. Percebido os sinais, o desgaste, o momento exato em que as coisas começaram a sair dos trilhos. Quando a ficha finalmente caiu, meu primeiro impulso foi a fuga: eu quis seguir adiante e deixar tudo para trás, mas sem finalizações a gente não progride. Deixar as portas batendo só faz o vento trazer o passado de volta; é preciso ter a coragem de fechá-las com as próprias mãos.
Durante muito tempo, achei que a resposta viria de fora. Tentei resolver tudo isso dentro de um consultório médico, mas no final das contas, eu tinha que resolver isso comigo mesma. O diagnóstico, a terapia e os remédios me deram as ferramentas, mas eles não podiam fazer o trabalho por mim. Faltava encarar o espelho sem filtros. É por isso que coloco essas palavras no papel. Não escrevo para esquecer, mas para me reencontrar. A escrita é o mapa que uso para achar o caminho de volta para casa, para quem eu sou de verdade.
Sinceramente eu tenho medo, não sei o que a vida me reserva. O desconhecido é um abismo silencioso e intimidador. Não sei o que vai ser daqui pra frente e procuro não pensar, porque tentar adivinhar o amanhã só alimenta a ansiedade do hoje. Vivi o suficiente para entender que o controle é uma ilusão. Passei por coisas intensas, que não desejo pra ninguém, dores silenciosas e tempestades que quase me levaram junto.
Mas o luto pelo que passou não pode durar para sempre. Talvez eu tenha que aceitar que o passado é um lugar onde não posso mais morar. Tenho que olhar a minha volta e perceber que tudo mudou, inclusive eu mesma. As paisagens mudaram, as pessoas mudaram, e as minhas próprias prioridades já não são as mesmas de um ano atrás. Eu sobrevivi, mas não saí ilesa - saí diferente.
E a maior verdade de todas, aquela que encaro agora com o peito aberto, é esta: que de alguma maneira e em algum momento vou ter que recomeçar e sozinha. E talvez essa solidão não seja um castigo, mas o espaço necessário para eu finalmente me escutar.
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